28/05/07

Finishing Countdown

Aviso a todos os desgraçados e melindrosos...estou à beira de regressar à santa terrinha: Tugolândia! ?Que hay de tan maravilloso?
Pois, depois de uns intermináveis quatros meses a trocidar o tico e o teco, a suportar Tios e Tias, bocadillos laxantes e hablar joer, conho, madre mia...nada é melhor que regressar à terra do escarra para o chão, unharra no dedo mindinho a servir de cotonete, bigode sujo do tinto com a sandes de bucho! Just love it :)
Dentro de 48 horas estarei em terras lusitânas, a embarcar em mais uma aventura e deixar Madrid e nuestros hermanos para trás. Mas no mau, não posso de deixar de elogiar os espanhois. È um povo que sabe viver, têm a Gitana nas veias e deixas-te contagiar pela sua movida. São pessoas que vivem para a vida! E daí a sua qualidade de vida ser incomparável. Adorei-vos, Zé Panhois, Marias Pantojas! Hope visit you all soon :)

16/05/07

Volver a Trypar

Refugiada no campo de concentração: Tryp Alameda Aeropuerto, já não há desculpas para n trabalhar. Mas as aventuras diminuiram e o trabalho acumulado esteve este tempo todo à minha espera. Em contagem decrescente para o regresso a Tugolândia, o ânimo ficou muito mais leve e as horas de noites mal dormidas mantêm-se, mas é por uma boa causa.

06/05/07

Homeless

Como os momentos de comédia e peripécias nunca param, tenho mais uma comédia para descrever...quem sabe não acabe num teatro da Broadway!!!
Neste momento estou literalmente sem tecto. Aqui, algures perdida nas catacumbas madrilenas. Tudo porque as minhas doces amigas do peito made in argentina, decidiram portar-se à altura das suas acções. Mais uma vez, chegas a casa para um fds descansado, a fazer planos de visitar Segóvia e Àvila e tenho a doce recepção de uma ameaça de despejo. E a ameaça é de facto uma metáfora, mas é nestas alturas que aprecio os productos portugueses.
Metes a chave à porta, entras e dás de caras com a Fêmea vestida de cordeirinho. Voz mansa, olhar de falsa compreensão. Começa logo bem com a ameaça de: ou pagas a renda ou és corrida à porrada! Humm...para os menos entendidos, no ingresso do circo pagasse o mês e um mês adiantado. Mas o que parece afinal é que algures no meio destes tão malfadados meses, o mês adiantado mudou de nome, agora chama-se mês de fiança.
E como as maravilhas nunca acabam no reino da alice, eu tinha que pagar então o mês de Maio e com sorte, ao sair ainda podia reaver alguma parte do recém-chamado mês de fiança. Bem, a pergunta fica no ar: Porquê o podia é utilizado numa frase sem lógica nenhuma? A contestação carneirina foi de que houve danos em casa durante a minha estadia e que eu deveria pagá-los.
LOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOLOOLOLOLOOLOLOLOLOLOLOOOLOL.
Desculpem, mas não me consegui conter e descasquei-me a rir. Ri tanto que até doía. Vá, respira. Que danos faz uma pessoa que sai as 6 da matina e chega quase as 21h, quando não é mais tarde? E que quando chega, toma banho, come uma sandes reles e vai para a cama. Bem, o desfecho estava a revelar-se, afinal de contas os vidros estalados do nada, equipamento de cozinha estragado dia sim dia não e televisão plasma novinha em folha tinham que ter uma ligação.
Ok cordeirinho, então já voltamos a falar. Back to my brooms closet, comecei a montar o puzzle de 500 peças, de grau baixo apto para crianças com um palmo de testa. Vi que aquele seria o dia da pancadaria. Esperei que o Macho chegasse e assim foi. Com sua altivez de puta ofendida, começou a desbobinar mentiras atrás de mentiras. Mas o que vale é que tantos anos na universidade me deram ferramentas: neurónios. Apontei-lhe todas as falhas no descurso dela, sem possibiliade de refutação. Mas só trouxe-a à realidade quando fui buscar a minha frigideira Tefal e encostei-a ao ecrã plasma. Agora vamos ver quem paga estes danos!!!!
Nada como recorrer à violência para ver a natureza das pessoas. De touro enraivecido para lobo esfomeado passou para um gatinho manso. Os portugueses podem ser burros porque se deixam pisar e relevar muitas vezes pessoas que não merecem...agora quando o calo começa a doer o português mostra que é violência que querem é violência que têm. Ou seja, não precisei de gastar a minha massa cinzenta, bastou recorrer aos genes e sangue na veia.
Contas pagas, dinheiro na mão, malas feitas e um sorriso de orelha a orelha, sai do circo. Posso dizer que estou bem, apesar de não ter onde ficar a viver até o meu regresso a PT. Uma pensão rasca com quartos cor de rosa e cheiro a esgoto serve perfeitamente. Finalmente consigo dormir em condições!

03/05/07

Vingança...uma novela panholesa!

Bem…

Hoje gostava de servir toda a gente cá de casa merda assada com caganitas de cebolada e como sobremesa, mousse de mijo de burro. Pois é, tem dias que eu definitivamente deixo de compreender as pessoas.

Viver com outras pessoas nunca é mau, mais que não seja porque aprendemos a lidar com as distintas personalidades e feitios, hábitos e formas de viver. E de todas as vezes que vivi com outras pessoas, confesso que correu sempre para o torto. Primeiro, era uma pessoa muito estouvada e que fazia o que lhe dava na real gana. Depois comecei a acalmar, mas continuava a fazer o que dava na real gana e agora sou a tranquilidade em pessoa mas continuo a reger-me pela gana.

Detesto viver em comunidades em que se partilha e que obriga uma pessoa a adoptar estilos de vida que não os seus. Tudo para chegar ao ponto fulcral de viver comunitariamente, uma pessoa partilha a mesma casa mas não obriga a partilhar a vida. E por vezes as pessoas não percebem isso. Eu gosto da minha solidão quanto baste, da minha privacidade sem ter que me preocupar em ter que trancar porta para mudar de roupa e aprecio os momentos de dedos de prosa na sala ou na cozinha com as aventuras do dia mas sem grandes detalhes. Respeito é um elemento muito importante na convivência salutar.

O que sempre aconteceu foi a quebra de uma das regras básicas ou até mesmo de todas. E quando isso acontece, é inevitável a ruptura. Desde que vivo nesta casa, ainda não tive um dia que pudesse dizer: sinto-me bem viver aqui.

Nada a fazer por agora, afinal de contas, já tenho os dias contados para voltar para a santa terrinha e nem me chateio. Mas tenho que procurar o lado cómico da situação. Hoje é um dos dias em que procuro na maldade uma pinga de comédia. Ora cá vai.

No meu prédio luxuoso, com quartos de arrumação alugados a tansos, se cambiaram as chaves dos elevadores. E a alminha, nem se apercebeu disso até que um dia chega a casa, carregada que nem uma mula com dois portáteis, mochila e duas sacolas com ração de combate. Já a ansiar por um elevador listo, apercebe-se que a chave mágica não manda mais no elevador submisso e o destino cruel a aguardava…as escaleras!

Três andares até não é muito e já me andava a queixar de falta de exercício físico. Peguei em tudo e lá subi as escadas energeticamente, parecia o Castelo Branco naquele programa da TVI. Que figurinha triste! Pois é, hoje não foi diferente. A chave nova continua incógnita e eu continuo muito tolerante. Mas por grande azar, a porta das escadas está fechada e hoje não existe outra forma de subir até casa, a não ser que aparecesse o Homem-Aranha! Bem, lá perdi a vergonha e começo a tocar às campainhas que já não tenha tocado nos últimos dias.

Sem sorte, decido arriscar…vou tocar á minha própria campainha! E então não é que tive a sorte desgraçada de haver alguém em casa! Uma voz semi-feminina atende. Como não distingo a Macho da Fêmea, anunciei-me e pedi se me podia enviar o ascensor para baixo. Como o intercomunicador desligou depois de proferir as minhas palavras secretas para a entrada no circo, lá fui toda contente para o elevador. Esperei, esperei e esperei! Humm, será que não espanholei como deve ser? Voltei à porta e toquei de novo na campainha mas desta vez nem resposta obtive. Deduzi que afinal já tinha entrado no circo e ainda não me tinha apercebido.

Bem, lá fui tocar ao vizinho, um velhote super simpático que tem tido a paciência de Job nestes últimos meses nas minhas infelizes peripécias. O coitado assim que ouviu a minha voz, soube o que queria e lá foi ele accionar o tão malfadado botão 0. Quando cheguei ao piso, ele estava lá à espera. Mais uma vez agradeci e lamentei o incómodo. È por causa de pessoas como este senhor que ainda acredito que há pessoas boas na vida.

Entro em casa e quem vejo, a Macho refastelada no sofá. Com um certo ar de vitória e arrogância. Agradeci-lhe pelo gesto atencioso, em tom ácido e com uma vontade de fazer o mesmo que o John Cena faz aos adversários em dias de Smack Down...LOL!

Respirei fundo e lá fui fazer a minha vidinha, comer, pôr a roupa a lavar e essas coisas aborrecidas e sem interesse nenhum. A Macho como não ficou satisfeita, decidiu aparecer pela cozinha e meter-se no meu caminho. Parei e com todo o respeito que tenho com os animais, esperei por um desviar. Como tal não aconteceu, pedi o tão conhecido “com licença”. De repente começo a ver que afinal aquele ser tinha o dom camaleónico, pois já não parecia um touro enraivecido mas sim um lobo faminto a ranger os dentes num acto de defesa. Hablou um enchurrilhos de parvoíces de que para ela eu tinha que falar com respeito e que para falar com ela tinha que falar em castelhano. Dah!!

È verdade que os animais possuem um QI invejável, comparado com certas pessoas e esta é a prova. Então não compreendo porque se gasta rios de dinheiro em investigações sofisticadíssimas para provar um facto e que eu posso facilmente afirmar!

De repente, enquanto ela estava para ali a esbracejar e a rosnar, lembrei-me daquele filme em que o Jack Nicholson fez em que se transformava em lobo. Ele conseguia ficar mesmo feio com aquela pelugem toda, mas aqui a minha cara Loba Argentina consegue bater recordes em questões de beleza. Reparei que ela tinha uma coisa nos dentes…devia ser algum resto de carniça guardada para o jantar. Decidi que devia prestar atenção ao que ela estava a dizer, afinal de contas ela estava a esforçar-se para ter a minha atenção.

Ainda tentei pronunciar algumas espanholada para ela entender, mas vi que não valia a pena. Fui fazer a minha vidinha e ela a continuar a rosnar. Quando decidi que era melhor virar-lhe costas é quando vejo uma coisa que todas nós mulheres detestam que aconteça…. A minha querida Ladra Mais Que Morde tinha uma valente mancha da sua secreta regla mensual nas suas preciosas calças brancas. Opa, que chatice, a tanga não ajuda mesmo nada e os tampões muito menos!

Bem, até ali até estava disposta a virar-lhe costas e deixá-la a falar sozinha, como muitas vezes. Mas desta, tinha que tirar partido da situação. O meu lado maquiavélico estava já a fazer grandes filmes e a relembrar as más experiências de secundário e pensos higiénicos da grossura dum livro. E qual a minha alegria, enquanto ela rosnava e grunhia, pega na sua pochete, chaves e saí furiosa de casa…é pena ela não perceber português, ainda tentei avisá-la….Opa, que chatice!


Por isso eu digo, o crime não compensa! E ás amigas do nuorte carago, Madrid está de portas abertas, agora chave de elevador nem vê-la! Vais ter que trazer o Homem-Arranha ;) para nos ajudar a entrar em casa!

Melhor impossível!

TugoManiaolado

Mais uma maravilha de viver em Madrid…o consulado português! Por motivos inerentes à vida legal de emigrante temporária a necessidade de um registo criminal é eminente! Talvez pela minha mala pinta ou por simplesmente querer voltar para Portugal num piscar de olhos, lá fui eu à net procurar informação. Como fazer para obter o meu registo criminal sem ter que voar para Portugal e deixar que a vontade de lá ficar fale mais alto? Embaixada tem um horário de trabalho estupendo e no entanto não é da sua responsabilidade documentação do género. Cabe ao consulado português, na calle Lagasca nº 80 e picos essa missão tão distinta, que abrem as 9h e terminam as 14h. E entre as delícias de passear pela área de Recoletos, lá se deu a horas pontuais com o bendito edifício.

Edifício manhoso, de estilo art eskiso e porteiro simpatiquíssimo, lá subi à quarta planta. Entra portas e obras, lá estava uma porta blindada com alto sistema de segurança. Foi preciso quase colar o nariz na câmara de videovigilância para me verem. Pronto, está bem, que sou pequena mas assim tanto convenhamos que é abuso. Lá abriram-se as portas da mina de Salomão e entrei noutra dimensão.

Agora compreendo para onde vai o dinheiro dos nossos impostos. Pois com tantos centros de saúde degradados, hospitais que chovem no interior e escolas improvisadas em contentores, compreendo agora o porquê dessa necessidade. Afinal de contas não queremos que os nossos cônsules e seus delicados funcionários façam má figura em terras de nuestros hermanos.

Eu, impávida entrei para terras lusas na 4ª planta. Senti no ar o afável acolhimento que os muitos portugueses devem sentir com uma ida ao consulado. Entrei, uma recepcionista meio tia disfarçada em morena com um sorriso falso e frio perguntou com a sua tão simpatia de cortar fatias do ar: “Diga?” Confesso que devo ter sido mal-educada, porque a minha mente por vezes deixa-me mal, pois estive a tirar as medidas à tão delicada senhora e estava a chegar à conclusão que queria ganhar o mesmo que ela e fazer o mesmo ou menos que ela quando voltei à realidade e balbuciei a que vinha. “Dirija-se a um dos guichets”, lá mais uma fatia de simpatia.

Eu devia estar mesmo com mau aspecto, porque fui olhada e analisada pelos radares. E talvez o radar dite a forma como as pessoas devem ser atendidas. Pois entre um casal novo, de bom aspecto e que ostentavam as suas tallas de marca, os sorrisos e trocas de mimos eram visíveis no guichet do Tio Cantigas. No guichet da Miss Bigode do Ano, a desgraçada senhora de cor e de aspecto humilde estava a ser atendida como um talhante lida com as carnes. Naquele momento desejei para que a Miss Bigudu não fosse a pessoa que me atendesse. Wrong!

Note-se que os ditos guichets são elegantes secretárias no dito moderno no bem acondicionado consulado. Lá calhou a minha vez. Sentei-me e esperei que a Bigodes arrumasse a papelada da pobre senhora que saíra de rabo entre as pernas e com um ar deveras triste. “Então, que deseja?” Perguntou uma voz de timbre irritante e de speaker no máximo. A cera que levava naquela manhã revelou-se benéfica e um verdadeiro amortecedor de vibrações.

Eu preciso de um registro criminal e gostaria de saber o que é necessário para o solicitar. Eu que fiz um esforço para elaborar uma frase tão bem feita, fui destronada por um irritante e megafónico: “E para que quer você um registo criminal?” Olhar inquisidor e desconfiado com os bigodes eriçados, a alminha parecia que estava diante de uma criminal, ex-reclusa ou terrorista internacional. Ora, porque será que uma pessoa se desloca a um local e solicita um registo criminal fazem logo cara de poucos amigos. Pois não tenho culpa que a companhia onde trabalho o solicite, apenas tenho que fornecer a documentação e pronto. Quando respondi, a senhora Mustache conseguiu buscar das profundezas o seu melhor agudo: “Para que raio a empresa precisa dum registo criminal? Oh minha menina, se precisa mesmo dum registo criminal é mais rápido ir a Portugal fazê-lo.”

E com esta frase, me fiquei. Então para que raio precisamos dum consulado? Afinal de contas a diferença de estar num pais estrangeiro e estar em Portugal se começava a revelar. E falamos nós mal da Tugolândia! Será que isto será um problema geográfico ou os nossos consulados de pouco servem? Aqui vai mais um referendo: È a favor da regionalização internacional?

Aqueles segundos fizeram toda a diferença na minha insignificante vida. Pois a senhora começou uma dissertação da vitimação dos serviços consulares versus os impiedosos sistemas burocráticos da santa terrinha. E com isto conseguiu a atenção dos presentes…e se a minha cabeça não fosse tão desorientada quase que me via naqueles filmes indianos em que alguém expõe o seu ponto de vista e que acaba com uma canção hindu com todos os presentes e arredores a dançar com véus e pétalas de flores coloridas num ambiente muito asiático! Mas a realidade era aquela, sem música nem floreados.

“Minha senhora…minha senhora”. Interrompi a jeito de quem está farta de conversa da treta. “Então não há uma forma então de fazer o registo ou obter o registo de outra forma, pois não tenho possibilidade de me deslocar a Portugal?” E lembrei-me: uma procuração poderia ser solução. Expus essa ideia, mas a compreensão não devia estar direccionada para o que estava a dizer e a Miss Bigode-De-Aço fez mais uma expressão digna de Hitler. “Procuração? Mas que raio quer você uma procuração? Um documento que peça a um familiar seu para que lhe faça o registo vá lá, agora uma procuração!?!”

Bem, tem dias que a Alice entra pela toca do coelho e arre que nunca mais sai de lá!

“Então, pronto, diga lá o que preciso para fazer esse documento?” E como a pergunta só é bem respondida com outra pergunta, lá veio a bomba: “E já está inscrita no consulado?” Ou seja, só poderia obter o maravilhoso documento sem nome se me inscrevesse no consulado. Respira fundo…”então o que é preciso para inscrição e tudo mais?” No meio das coisas que precisava, tanto para a inscrição como para a pseudo-procuração, por grande azar não tinha uma foto. Fui despachada à velocidade da luz, que sem foto e dados do alegado procurador, nada feito. “Volte cá quando tiver tudo!” E pronto…uma hora passada e saio de lá mais parva de que quando entrei.

Não queria deitar uma manhã, já por si perdida, fora! Teimosa, em meia hora arranjei tudo o que eventualmente poderia precisar. Ganho coragem e volto confiante que agora tudo seria mais rápido e menos doloroso auditivamente. I wish!

Eu quero crer que devia estar mesmo com muito mau aspecto. Pois volto. Primeiro, a recepcionista nem tão pouco se lembrava da minha estadia à menos de meia hora antes, volta-me a perguntar: “Diga?” Respondi que tinha estado ali há pouco e que queria dar continuação ao que vinha a fazer. “Jovem, não me lembro de todas as caras…são tantas as pessoas que entram e saem. Dirija-se ao guichet.”

Bem, eu não devia dizer isto, mas se todas as manhãs forem como a de quando estive, então a senhora sofre de amnésia. Porque aquilo não tem o ritmo das finanças em fase de entrega de IRS, nem de longe nem de perto! Bem, continuando a seca de charla.

Viro-me, já frustrada para os ditos guichets e vejo a Miss Bigudaço a levantar-se e a juntar-se à recepcionista, numa possível continuação do seu intenso trabalho…de analisar a Hola! Só me restava o outro guichet. Nele, estava sentado um senhor de aspecto muito aristocrata e de boa pinta, o já conhecido Tio Cantigas. Fez-me sinal para me sentar. “Que deseja?” Mais uma vez expliquei a minha necessidade de um registo criminal e das palavras proferidas pela sua colega de trabalho quanto à morosidade do documento, da necessidade de autorizar um familiar para a sua solicitude. Até ali ia tudo muito bem. Até referir que não estava inscrita ainda no consulado, mas que já tinha em minha posse tudo que era necessário.

O Sr. Ice in the Box, olhou para mim com o sobrolho levantado, iniciou a sessão de inquisição. Entre muitas perguntas e respostas, o tratamento foi como se eu fosse uma fulanita, como ele me chamou, e estava ali com uma tramóia qualquer. A minha paciência estava já a chegar ao extremo…mas a cada dia que passa descubro que sou muito mais paciente do que aquilo que achava. A necessidade de resolver a situação prevalecia à minha raiva e vontade de mandar aquela cambada para a puta que os pariu!


Comecei com a inscrição no consulado, um papelote da treta mas que parece vital a muito boa gente. Após algumas frases infortunadamente proferidas por tão digno senhor, sobre alguns pormenores pessoais, lá consegui conter a raiva até à bendita procuração. O que posso dizer é que levei mais de uma hora com o Tio Cantigas e saí de lá com a certeza de não voltar nunca mais.

Aos funcionários do consulado português, só lhes desejo que o Pai Natal vos traga todas as prendas que não receberam na infância, porque só assim explica a frieza e tão pouco respeito pelas pessoas que lá precisam de ir. Porque as pessoas não se distinguem pelos cargos que exercem, pelos títulos que ostentam nem pelas marcas que vestem. E se vivemos assim, aconselho a quem precise, melhor marcar umas mini-férias à santa terrinha, pois o proveito é melhor e o tratamento também!

Devoção

Sair de Madrid pode revelar-se um verdadeiro suplicio. De coche, basta um bom mapa e um pouco de coragem se consegue afastar das M-30 e M-40, as respectivas circulares que escoam o trânsito madrileno. Mas com a maravillosa semana santa, até se torna um passeio agradável, desde que saibas para onde vais. Pois bem, visitar Toledo ou outra cidade nesta altura do ano é praticamente impossível, porque os seus Tios e Tias saem das suas vidas boémias e uma vez por ano se dedicam à purificação das suas almas.

Aqui, as beatas não sobrevivem à massificação dos Tios. E é nestas alturas que vejo que afinal os espanhóis e os portugueses não são assim tão diferentes. Na minha santa terrinha, por esta altura as burras montam-se nos burros, com os seus vestidos de chita e lá vão os tristes burricos caminhar ao pueblo de todas as peregrinações. Lá se venera su Dios, disputam as bandeiras já retraçadas e cheias de manchas de cerveja e comem que nem uns cerdos à conta dos verdadeiros cristãos que poupam o ano todo para aquilo.

Aqui, os burros são substituídos por Mercedes SLK e os vestidos de chita por tallas de marca. O remate das bandeiras mantém-se mas aqui o desejo de se mostrar mais cristão que os outros ide ao ponto da dor. Os Tios oferecem-se para carregar o altar da Madre Virge de la Cabeza e chegada à hora estam eles, com os teus óculos escuros Giorgio Armani e altar em ombros. Dez minutos depois já estás a rogar por tudo quanto é praga e a dizer que a procissão nunca mais acaba. Sim, o espírito cristão prevalece!!

O caminho é feito a fingir devoção e a olhar para o decote das muitas espectadoras cristãs, mas de forma inocente. Afinal de contas olhar não arranca bocado. Após umas valentes horas de procissão, cabelo desgrenhado, óculos perdidos, suor e sangue na camisa YSL, lá se chega ao fim, a jurar que nunca mais cometem o mesmo erro e que maldita seja a mulher, que o obrigou a entrar na aventura.

Quando chegam finalmente as Tias, vêm fartas de fazer compras e a pedir para ir para casa, pois estão cansadas e que os saltos altos estão a magoar-lhes os pés! Mais umas charlas de quão devotos são e lá vão eles para as suas modestas viviendas e de alma purificada, por mais um dever cumprido!

Semana Santa...

Quando chegou a semana santa, o equivalente à nossa Páscoa, que coisa graciosa, Espanha paralisa, os espanhóis se evaporam e as estradas ficaram à minha mercê!

Até o circo fechou de férias. Ou seja, para além das calles, autovias, aparcamentos ainda tube derecho a tener lo piso para mi, solo! Que bem que soube chegar do trabalho, sentar na sala e ligar a televisão!

A pérola das seis da tarde é o jornal regional, onde sabes todas as maravillosas desgracias dos pueblos: padres amordaçados e mutilados em casa, mulheres que fizeram implantes de silicone e que sus tetas ficaran desfuermes, netos que foram retirados da tutela dos seus avuelos porque os miúdos pesam mais de 100 quilos aos 12 anos de idade e por aí adelante. Zapping implica mudar de canal mas a esquemática de programação é idêntica a quase todos os canais espanhóis. Então sabes de todas as desgraças espanholas e aguardas pelo telejornal.

Pois, descobri que aqui até o telejornal é como o jantar, tarde e a más horas. Telejornal espanhol, bien, é mesmo só telejornal espanhol, pois o resto do mundo não existe. Raras são as noticias do mundo e actualidades. Lá se ouve falar dos mortos no Iraque e lá voltamos nós ao Zapatero, ao M-11, à ETA e sus etarras e pronto. Aposto que se caísse o A380 em Portugal ou descobrissem que Bin-Ladem vivia em Sintra, no Castelo do Mouro, ninguém aqui sabia!

Bem, depois do tardíssimo telejornal, juro que não sei o que dá, mas deve ser uma telenovela de qualidade made in Madrid. Quando voltei à televisão, qual o meu espanto, ia dar a Anatomia de Grey. Logo aí as lágrimas vieram-me aos olhos, primeiro porque ia ver uma série que já vai aqui na segunda/terceira temporada mas que a história continua na mesma e segundo porque eles aqui dobram tudo!

Como um veterano de guerra, resignado à sua condição de reserva, lá me esparramei no sofá que faz cova ao meio (de quem será o cu, com muito mau feitio, que faz isto? Hum, hesito…) e lá comecei a ver os três episódios seguidos que deram. Confesso que a língua espanhola tem o seu encanto, mas que ver tudo doblado provoca stress pós-traumático. Jurei para nunca mais…inclusive, fiquei com uma dor de costas, que até hoje…

Volta TVI, estás perdoada!

Viver em Comunidade...Arre!!!

Confesso que sou uma pessoa muito caseira, que gosta muito de dormir e ficar em casa a pastelar no sofá em frente à televisão. Mas desde que cheguei a Madrid, que não tenho sofá, nem televisão nem sossego para dormir. Bem, por onde começar…?

Ter tido direito, por parte da companhia a quinze dias de hotel **** foi muito bom, mas tanta fome que eu passei. Tinha o pequeno-almoço incluído mas como saía cedo e sempre cheia de pressa (tudo para não apanhar a hora de ponta) e nunca comia em grandes condições. Almoço que era bom, nem vê-lo, porque cerca das oficinas não há nada! Então, estava mortinha por alquilar un piso. Mas tendo em conta que o aluguer de um apartamento, tipo ovo, custa o olho! Então optei por procurar uma habitación, o nosso equivalente quarto. Entre muitas aventuras habitacionais e peripécias, acabei na créme de la créme. Apartamento novo, duas casas de banho, cozinha grande, 300 euros sem gastos incluídos pelo quarto mais pequeno da casa, enfiado entre as duas casas de banho e que acredito agora que o seu propósito arquitectónico era arrumar vassouras. Pois, fiquei bem arrumada!


Agora, após os longíssimos meses, confesso que estou a viver no circo Chen. Porque é o que posso considerar desta cambada de animais e cavalgaduras. Como descrever as especimes? Um exemplar é o macho da Cuenca que eu tanto gosto de chamar Macho da Cueca, o verdadeiro MC J Suits him well! Outro exemplar é Bajadoziano, que fala à velocidade do Speedy Gonzalez e que nunca percebo. E as restantes alminhas, são carne de origem argentina, tenrinha mas indegesta! Considerando que existem apenas quatro quartos, e que nesta casa não existem parejas, então só se pode concluir que: ou os chicos dormem juntos ou as chicas partilham a mesma cama. Quem vota quem?

A resposta é fácil, até porque as descrições estão apropriadas para facilitar a resposta de perguntas difíceis. Acertaram, as chicas partilham a mesma habitación. E devo dizer que neste caso existe o macho e a fêmea da relação. A macho argentina, para além de ter um sotaque raro veste-se à soldadora do Flashdance, até o pelo é dos early 80 style! A beleza é a de um toiro enraivecido em dias de festa em Barrancos e tem um passatempo: implicar com moi méme! Já viram sorte a minha!

A fêmea, queixo duplo, boca enfiada para dentro, pequena como tudo, é a simpatia da casa. E temos conversas muito agradáveis: Porque comes tan temperano? Estais aparcando o coche mui lejos! Han hecho postre, podres comerlo! Lleba la basura cuando te salgas por la manhana.

Então para esclarecer os mais entendidos na matéria: eu como às horas de Portugal, logo é normal que jante as oito da noite. Até porque cenar quase à meia-noite deixou-me tan empanzinada, que no outro dia nem comi! Depois, eu estaciono o carro onde raio me bem apetecer e não gosto nada de andar às voltas só para estacionar mesmo à porta. Andar dois minutos até casa nunca fez mal a ninguém. Assim como, comidas espanhola, nem doce nem amarga, longe! E por último, todas as manhãs levava o lixo da casa, na primeira manhã era um saco e ao longo das semanas foi incrementando a quantidade. Pois como eu não almoço e só cozinho duas vezes por semana, comecei a achar que o meu copo do iogurte e talo da couve não justificavam carregar quem nem uma mula o lixo dos outros.


Quanto ao MC in tha house, o verdadeiro cota panhol meio tio meio tia, adora uma boa cusquice e é o verdadeiro gerador de electricidade da tenda do circo. Porque sem luz, não há espectáculo para ninguém! A verdade é que no meio desta bicharada, eu fui apanhada aqui no meio de uns triângulos, de quatro esquinas, amorosos. E se me dou bem com a fêmea, a macho começa a raspar os cascos no chão e a deitar fumo pelas ventas. Se falo com a macho ainda apanho uma cornada e depois o MC fica com ciúmes da falta de atenção…

Por Dios…tirem-me desta película!!!