03/05/07

TugoManiaolado

Mais uma maravilha de viver em Madrid…o consulado português! Por motivos inerentes à vida legal de emigrante temporária a necessidade de um registo criminal é eminente! Talvez pela minha mala pinta ou por simplesmente querer voltar para Portugal num piscar de olhos, lá fui eu à net procurar informação. Como fazer para obter o meu registo criminal sem ter que voar para Portugal e deixar que a vontade de lá ficar fale mais alto? Embaixada tem um horário de trabalho estupendo e no entanto não é da sua responsabilidade documentação do género. Cabe ao consulado português, na calle Lagasca nº 80 e picos essa missão tão distinta, que abrem as 9h e terminam as 14h. E entre as delícias de passear pela área de Recoletos, lá se deu a horas pontuais com o bendito edifício.

Edifício manhoso, de estilo art eskiso e porteiro simpatiquíssimo, lá subi à quarta planta. Entra portas e obras, lá estava uma porta blindada com alto sistema de segurança. Foi preciso quase colar o nariz na câmara de videovigilância para me verem. Pronto, está bem, que sou pequena mas assim tanto convenhamos que é abuso. Lá abriram-se as portas da mina de Salomão e entrei noutra dimensão.

Agora compreendo para onde vai o dinheiro dos nossos impostos. Pois com tantos centros de saúde degradados, hospitais que chovem no interior e escolas improvisadas em contentores, compreendo agora o porquê dessa necessidade. Afinal de contas não queremos que os nossos cônsules e seus delicados funcionários façam má figura em terras de nuestros hermanos.

Eu, impávida entrei para terras lusas na 4ª planta. Senti no ar o afável acolhimento que os muitos portugueses devem sentir com uma ida ao consulado. Entrei, uma recepcionista meio tia disfarçada em morena com um sorriso falso e frio perguntou com a sua tão simpatia de cortar fatias do ar: “Diga?” Confesso que devo ter sido mal-educada, porque a minha mente por vezes deixa-me mal, pois estive a tirar as medidas à tão delicada senhora e estava a chegar à conclusão que queria ganhar o mesmo que ela e fazer o mesmo ou menos que ela quando voltei à realidade e balbuciei a que vinha. “Dirija-se a um dos guichets”, lá mais uma fatia de simpatia.

Eu devia estar mesmo com mau aspecto, porque fui olhada e analisada pelos radares. E talvez o radar dite a forma como as pessoas devem ser atendidas. Pois entre um casal novo, de bom aspecto e que ostentavam as suas tallas de marca, os sorrisos e trocas de mimos eram visíveis no guichet do Tio Cantigas. No guichet da Miss Bigode do Ano, a desgraçada senhora de cor e de aspecto humilde estava a ser atendida como um talhante lida com as carnes. Naquele momento desejei para que a Miss Bigudu não fosse a pessoa que me atendesse. Wrong!

Note-se que os ditos guichets são elegantes secretárias no dito moderno no bem acondicionado consulado. Lá calhou a minha vez. Sentei-me e esperei que a Bigodes arrumasse a papelada da pobre senhora que saíra de rabo entre as pernas e com um ar deveras triste. “Então, que deseja?” Perguntou uma voz de timbre irritante e de speaker no máximo. A cera que levava naquela manhã revelou-se benéfica e um verdadeiro amortecedor de vibrações.

Eu preciso de um registro criminal e gostaria de saber o que é necessário para o solicitar. Eu que fiz um esforço para elaborar uma frase tão bem feita, fui destronada por um irritante e megafónico: “E para que quer você um registo criminal?” Olhar inquisidor e desconfiado com os bigodes eriçados, a alminha parecia que estava diante de uma criminal, ex-reclusa ou terrorista internacional. Ora, porque será que uma pessoa se desloca a um local e solicita um registo criminal fazem logo cara de poucos amigos. Pois não tenho culpa que a companhia onde trabalho o solicite, apenas tenho que fornecer a documentação e pronto. Quando respondi, a senhora Mustache conseguiu buscar das profundezas o seu melhor agudo: “Para que raio a empresa precisa dum registo criminal? Oh minha menina, se precisa mesmo dum registo criminal é mais rápido ir a Portugal fazê-lo.”

E com esta frase, me fiquei. Então para que raio precisamos dum consulado? Afinal de contas a diferença de estar num pais estrangeiro e estar em Portugal se começava a revelar. E falamos nós mal da Tugolândia! Será que isto será um problema geográfico ou os nossos consulados de pouco servem? Aqui vai mais um referendo: È a favor da regionalização internacional?

Aqueles segundos fizeram toda a diferença na minha insignificante vida. Pois a senhora começou uma dissertação da vitimação dos serviços consulares versus os impiedosos sistemas burocráticos da santa terrinha. E com isto conseguiu a atenção dos presentes…e se a minha cabeça não fosse tão desorientada quase que me via naqueles filmes indianos em que alguém expõe o seu ponto de vista e que acaba com uma canção hindu com todos os presentes e arredores a dançar com véus e pétalas de flores coloridas num ambiente muito asiático! Mas a realidade era aquela, sem música nem floreados.

“Minha senhora…minha senhora”. Interrompi a jeito de quem está farta de conversa da treta. “Então não há uma forma então de fazer o registo ou obter o registo de outra forma, pois não tenho possibilidade de me deslocar a Portugal?” E lembrei-me: uma procuração poderia ser solução. Expus essa ideia, mas a compreensão não devia estar direccionada para o que estava a dizer e a Miss Bigode-De-Aço fez mais uma expressão digna de Hitler. “Procuração? Mas que raio quer você uma procuração? Um documento que peça a um familiar seu para que lhe faça o registo vá lá, agora uma procuração!?!”

Bem, tem dias que a Alice entra pela toca do coelho e arre que nunca mais sai de lá!

“Então, pronto, diga lá o que preciso para fazer esse documento?” E como a pergunta só é bem respondida com outra pergunta, lá veio a bomba: “E já está inscrita no consulado?” Ou seja, só poderia obter o maravilhoso documento sem nome se me inscrevesse no consulado. Respira fundo…”então o que é preciso para inscrição e tudo mais?” No meio das coisas que precisava, tanto para a inscrição como para a pseudo-procuração, por grande azar não tinha uma foto. Fui despachada à velocidade da luz, que sem foto e dados do alegado procurador, nada feito. “Volte cá quando tiver tudo!” E pronto…uma hora passada e saio de lá mais parva de que quando entrei.

Não queria deitar uma manhã, já por si perdida, fora! Teimosa, em meia hora arranjei tudo o que eventualmente poderia precisar. Ganho coragem e volto confiante que agora tudo seria mais rápido e menos doloroso auditivamente. I wish!

Eu quero crer que devia estar mesmo com muito mau aspecto. Pois volto. Primeiro, a recepcionista nem tão pouco se lembrava da minha estadia à menos de meia hora antes, volta-me a perguntar: “Diga?” Respondi que tinha estado ali há pouco e que queria dar continuação ao que vinha a fazer. “Jovem, não me lembro de todas as caras…são tantas as pessoas que entram e saem. Dirija-se ao guichet.”

Bem, eu não devia dizer isto, mas se todas as manhãs forem como a de quando estive, então a senhora sofre de amnésia. Porque aquilo não tem o ritmo das finanças em fase de entrega de IRS, nem de longe nem de perto! Bem, continuando a seca de charla.

Viro-me, já frustrada para os ditos guichets e vejo a Miss Bigudaço a levantar-se e a juntar-se à recepcionista, numa possível continuação do seu intenso trabalho…de analisar a Hola! Só me restava o outro guichet. Nele, estava sentado um senhor de aspecto muito aristocrata e de boa pinta, o já conhecido Tio Cantigas. Fez-me sinal para me sentar. “Que deseja?” Mais uma vez expliquei a minha necessidade de um registo criminal e das palavras proferidas pela sua colega de trabalho quanto à morosidade do documento, da necessidade de autorizar um familiar para a sua solicitude. Até ali ia tudo muito bem. Até referir que não estava inscrita ainda no consulado, mas que já tinha em minha posse tudo que era necessário.

O Sr. Ice in the Box, olhou para mim com o sobrolho levantado, iniciou a sessão de inquisição. Entre muitas perguntas e respostas, o tratamento foi como se eu fosse uma fulanita, como ele me chamou, e estava ali com uma tramóia qualquer. A minha paciência estava já a chegar ao extremo…mas a cada dia que passa descubro que sou muito mais paciente do que aquilo que achava. A necessidade de resolver a situação prevalecia à minha raiva e vontade de mandar aquela cambada para a puta que os pariu!


Comecei com a inscrição no consulado, um papelote da treta mas que parece vital a muito boa gente. Após algumas frases infortunadamente proferidas por tão digno senhor, sobre alguns pormenores pessoais, lá consegui conter a raiva até à bendita procuração. O que posso dizer é que levei mais de uma hora com o Tio Cantigas e saí de lá com a certeza de não voltar nunca mais.

Aos funcionários do consulado português, só lhes desejo que o Pai Natal vos traga todas as prendas que não receberam na infância, porque só assim explica a frieza e tão pouco respeito pelas pessoas que lá precisam de ir. Porque as pessoas não se distinguem pelos cargos que exercem, pelos títulos que ostentam nem pelas marcas que vestem. E se vivemos assim, aconselho a quem precise, melhor marcar umas mini-férias à santa terrinha, pois o proveito é melhor e o tratamento também!

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